Flavia e Um Pouco da Vida na Alemanha

O texto de hoje é da Flavia Davis, que mora na Alemanha com o marido, seus dois filhos, Viola e Samuel, e uma cachorra linda. Aqui ela divide conosco um pouco da sua história, da alimentação da família e das dores e delícias de ser uma cidadã do mundo.

Aqui vão as palavras dela, que toquem o seu coração da mesma maneira que tocaram o meu:

Acho que a melhor forma de contar minha historia de vida, é contar as experiências que me tornaram a pessoa que sou hoje. Meus pais se divorciaram antes de eu nascer e por isso a figura paterna foi assumida por uma mãe guerreira, que tenho até hoje como exemplo de mulher, mãe e amiga.

Aos meus sete anos minha mãe largou toda a segurança que havia construído em São Paulo e nos mudamos para uma comunidade espiritual no sul de Minas Gerais. Acho que essa foi a vivência que mais me definiu. Lá plantávamos o que comíamos, construíamos onde morávamos e vivíamos em comunidade.

Foi uma infância vivida com liberdade, no meio dos animais e da natureza. Onde aprendi o valor do respeito e da importância de colocar o mundo na frente de mim mesma. Moramos lá por três anos, desde então mudei de cidade, estado ou país diversas vezes, frequentei 11 escolas e aprendi a ser uma cidadã do mundo.

Minha última grande mudança foi deixar a profissão e a minha família no Brasil e me mudar com meu marido para Berlin, Alemanha, onde estamos há oito anos. Já tive muitos recomeços, mas nenhum tão difícil como esse.

Aqui senti na pele a diferença cultural e a diferença racial. Apesar de ser uma cidade multicultural, Berlin é dura e cheia de cicatrizes, mostra uma realidade onde tudo é possível, mas ao mesmo tempo é cheia de solidão.

Aqui vivi de tudo, posso dizer que curti Berlin ao máximo, até engravidar de minha primeira filha. Tive que mudar minha vida por completo, principalmente minha rotina e o ritmo de minha vida. Passei a cozinhar mais e me preocupar com o que comia, pois havia chegado a minha vez de servir de exemplo como mãe, mulher e, futuramente, amiga. 

Meu filho chegou um ano e meio depois, rapidinho, e com ele minha vida virou de cabeça para baixo. O dia planejado e calmo se tornou uma avalanche que estava me engolindo. Cozinhar, limpar, brincar, passear, educar, alimentar… pois é, perdi a batalha! Mas aprendi a aceitar que não vou conseguir fazer tudo, que não vou poder ser a melhor mãe do mundo sempre, e estou em paz. 

Meus filhos comem pelo menos uma refeição saudável por dia. Se hoje o melhor que consegui foi pizza, amanhã eles vão comer um bom curry de batata doce e arroz de jasmim, e assim vou levando a nossa rotina. Fruta é o maior componente da alimentação na nossa casa, somos todos fanáticos!

Como toda criança, nem sempre querem comer legumes ou grãos, mas acredito que sabem o que o corpo pede, então não forço. Só tenho uma regra: hora de comer é hora de comer, se não está com fome, vai esperar até a próxima refeição. 

Não gosto da comida alemã, mas a vantagem de morar em Berlin é que aqui temos acesso à comidas do mundo todo, como vietnamita, turca, italiana, portuguesa, espanhola, indiana, africana, entre muitas outras. Por isso, em casa comemos de tudo, desde curry e falafel, até o mais simples e gostoso arroz com feijão. As crianças comem o que nós comemos.

Acho que a última coisa que gostaria de dividir é a parte da cultura alemã que mais gosto. Aqui tudo é natural. Criança é criança, se suja, anda pelada e brinca na rua, faça frio ou calor. Mãe pode ser mãe, amamentar em público é tão comum quanto beber água, vivo de peito de fora 🙂 e foi virando mãe na Alemanha que pude vivenciar os dois momentos mais transformadores da minha vida, o nascimento dos meus filhos. 

Viola nasceu no hospital com 42 semanas de gravidez depois de esperar 32 horas pós ruptura da bolsa. Infelizmente tive que ser induzida, mas não fui apreçada, nem forçada a nada, nasceu num quarto sem médicos, sem aparelhos e com minha família junto. Samuel nasceu em casa, no meu quarto, com meu marido e cachorro ao lado. No Brasil diriam que fui corajosa ou talvez inconsequente, mas aqui na Alemanha o parto domiciliar é tão comum que é até coberto pelo seguro de saúde.

A vida na Alemanha me permite ser uma mãe sem medo e cheia de restrições. Me permite ser uma mulher que não se sente fora do padrão por não ter o corpo ou o cabelo estipulados pela sociedade. E me permite ser amiga de pessoas de todos tipos, cores e gostos.

Muito obrigada, Flavia! 

Recomendo muito que acompanhem um pouco mais do dia a dia dela no Instagram  Reflections of a Rain Drop.

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