Maternidade x Vida Profissional – Por Carolina Scalice

A Carolina é produtora no mercado audiovisual. É casada e mora com a família na capital paulista. Ela é mãe do Joaquim ( 2 anos e meio).

Abaixo coloco as palavras dela sobre a melhor maneira possível que encontrou para equilibrar a carreira, a maternidade e as tantas outras coisas que também somos e queremos ser. Ela dá um show!

Aqui vai:

Se me dissessem lá atrás, para a Carol de pouco mais de 20 anos, que sempre afirmava que não queria ter filhos, que eu viraria os 40 com um pequeno do meu lado, sendo ativa em grupos de mães, amamentando uma criança de pouco mais de 2 anos, amando tanto uma pessoa como eu nunca poderia imaginar, eu não acreditaria.

Trabalho há pouco mais de 15 anos como produtora audiovisual e nunca usei a desculpa “não tenho tempo para isso, quero focar no trabalho” para não ter filhos. Simplesmente me via como uma mulher que não queria ter filhos e era muito bem resolvida sobre este assunto.

Estou com o André há quase 9 anos, ele é 9 anos mais novo que eu, vem de uma família de 9 irmãos e sempre o vi como um grande pai, caso eu tivesse um filho.

Não era a mesma coisa que querer ter filhos, mas sabia que ele seria um grande pai. E é.

Engravidamos no susto, numa pausa da pílula anticoncepcional. Estava com a menstruação reguladíssima, uma única vez sem camisinha e veio o atraso (sim, acidentes acontecem).

SABIA que estava grávida logo no primeiro dia de atraso. Diferente de tantas vezes que atrasei e nunca tive esta certeza absoluta (o corpo humano, a intuição feminina, uma loucura).

Foi tão no susto que fiz 4 testes de farmácia e, não contente, duvidei de um teste de sangue que deu positivo.

Minha gravidez foi super tranquila, Joaquim nasceu de uma cesárea humanizada em 6 de novembro de 2016.

Acho que a ficha da maternidade caiu, de verdade, quando com pouco menos de 2 meses de vida, descobrimos que o Joca teria que passar por uma cirurgia, anestesia geral…

A cirurgia foi um sucesso, ele está ótimo, mas e o MEDO? E ficar imaginando o que poderia acontecer se desse tudo errado?

Aí caiu a ficha de que não poderia viver sem ele, era o meu filho, meu sangue. PÁ! Sou mãe, ele é pai, este é nosso filho. Ficha caiu mesmo.

Aceitar esta transformação tão grande que é se perder como mulher e virar mãe… que difícil!

Foram quase 7 meses de licença maternidade e voltar ao trabalho foi libertador e assustador. Tudo ao mesmo tempo.

André é professor de inglês e eu trabalho em uma produtora, hoje como coordenadora de produção executiva, onde sou fixa há quase 10 anos. Sou eu que tenho a renda fixa em casa.

No final da gravidez, ele foi mandado embora da escola em que trabalhava e conversamos muito sobre ele ter mais tempo para ficar em casa, diminuir o ritmo.

Uma vez que eu, obrigatoriamente, seria a pessoa a trabalhar fora, de segunda a sexta, pelo menos 8h por dia.

Contratamos uma babá, a Sandra, que está com a gente até hoje. Ela nos ajuda a cuidar e educar o Joca, o acompanha na casa de brincar, nos Sescs da vida, e que me deu tanta força para que eu me dedicasse ao meu trabalho.

Joaquim com a Sandra

Mas sou aquela mãe que precisava voltar ao trabalho…. Não só pelo lado financeiro, mas pela minha sanidade mental também.

Sei que muitas mães enfrentam dificuldades quando voltam ao trabalho , pois batem cartão, não tem flexibilidade de horários para conciliar trabalho-casa-filho-marido. Não tem novas oportunidades de trabalho quando são mandadas embora após a licença.

Sou muito sortuda de trabalhar em um ambiente que me acolheu desde a gravidez e que confiou em mim neste retorno.

Ordenhava leite 2x ao dia na minha volta ao trabalho (fora o leite do Joaquim, ainda doei leite por quase 1 ano!). Entrava um pouco mais tarde e saía um pouco mais cedo para ter mais tempo com minha família. E nunca deixei meus chefes na mão.

Pelo contrário, impressionante como ficamos focadas e entregamos o que precisamos entregar em menos tempo! Tanto que fui promovida, assumindo um novo departamento na empresa.

Ordenhando no camarim vazio da produtora

Engraçado que no meu trabalho, em uma reunião de funcionários com uma coaching, tivemos várias conversas individuais sobre o que cada um gostaria de aprender com as outras pessoas, o que admirava nelas… 

Fiquei surpresa ao escutar de vários de meus colegas que gostariam de se espelhar em mim, como profissional e como mãe, e aprender a conciliar este tempo que parece tão pouco, fazer o dia render como se tivesse 48 horas, e se dedicar tanto ao trabalho quanto à família sem crises (sem crises!? hehehe)…

Me senti orgulhosa de passar esta imagem apesar de não sentir isso na pele, pelo menos não tanto quanto aos olhos dos meus colegas…

Mas me deu ânimo e me fez repensar a culpa de ficar o dia inteiro fora, 5 vezes por semana, longe do Joca.

Ser realizada profissionalmente, ter apoio dos meus chefes e meus colegas, me faz sentir que lá na frente, Joca vai ter orgulho de mim (assim como tenho de minha mãe, que foi professora até depois dos 60 anos, ficando fora de casa das 7h às 18h todo dia.

Tem dias que saio de casa de madrugada para acompanhar gravações, acabo passando 12h longe da família… às vezes são períodos de 1 mês, 2 meses… trabalho 12 horas, volto para casa e fico com Joca até quase 21h, que é o horário dele dormir, aí tomo um banho, ajeito algo da casa, vejo se ele tem o que comer no dia seguinte…

Dupla jornada que fala, né? Mas a gente se adapta, não tem jeito.

Nossos dias são sempre corridos (como imagino em todas as famílias). Final de semana tem sempre que ser programado, onde vamos, com quem vamos, qual é a programação do Joca. Ficar em casa não é uma opção.

Fora isso, ainda nos organizamos para fazer a comida dele, acho que pelo menos 1 vez por mês, sábado ou domingo, eu ou André nos revezamos para um cuidar de Joca e outro fazer vários tipos de feijão, sopa, arroz, bolo para congelar, etc. O que conseguirmos facilitar no dia a dia dele aqui em casa em relação a comida, é bem vindo!

Durante a semana, Joca fica com a babá aproximadamente das 9h às 18h. Ele frequenta uma casa de brincar na Vila Mariana, onde tem aulas de música, arte, culinária e expressão corporal. Com um grupo de crianças de diferentes idades, mas que não é um grupo fixo.

E lá brinca muito, muito mesmo! Quando não está lá, a Sandra o leva em algum dos Sescs próximos da nossa casa.

Como meu marido dá aulas em empresas ou aula particular, o horário dele é muito mais flexível, tem manhãs que ele fica com Joca e chama a Sandra mais tarde, quando tem tardes livres libera ela mais cedo…

E ficamos naquela luta diária de tentarmos arranjar tempo para ser homem e mulher, rir, namorar, conversar de outro assunto que não seja nosso filho e suas conquistas.

Quando saímos é inevitável, ficamos vendo fotos, vídeos dele! Mas ano passado fizemos uma coisa super legal, que foi viajar sem o Joca por 4 dias.

Fizemos alguns “experimentos” com ele antes, deixando a Sandra dormindo com ele de um dia pro outro, e fomos nos acomodando na casa de amigos, na casa de parentes (rolou até uma noite no Maksoud Plaza), e vimos que SIM, nosso filho sobrevive sem os pais.

É independente de nossa presença, e SIIIIIIMMMMMM, o quanto é legal retomarmos nossa vida de casal mesmo que por uma noite, sem ter que acordar na madrugada com um choro, sem uma criança na nossa cama no meio da noite.

A viagem foi incrível pra gente e foi mais legal ainda pro Joca, que ficou com a tia, Sandra, e os primos em casa, fazendo vários passeios legais com eles.

Rolou culpa, rolou saudade? ROLOU, e sempre vai rolar. Mas eu e André vemos isso como uma necessidade e somente do ano passado para cá que conseguimos criar uma rotina de casal de novo, indo à shows que tanto gostamos, jantando fora (ambos com as 2 mãos livres), dormindo fora… e nada disso seria possível sem esta pequena rede de apoio que podemos contar. Rede de apoio, empoderamento, feminismo, significam TANTO para uma mãe….

E sim, também nos revezamos para fazer as coisas que gostamos de fazer sozinhos. Seja o jogo de futebol do marido ou minha ida ao cinema sozinha. Tentamos nos revezar para ficar com Joca e termos este tempo para nós mesmos, com nossos programas e nossos amigos.

Hoje quando olho para o Joca, sento com André e repenso toda nossa história, não me imagino sem o Joaquim, sem esta família. Engraçado afirmar isso depois de anos falando que eu não queria filhos, né?

Uma das coisas mais importantes que escutei pouco antes do Joca nascer foi “trabalhe as SUAS expectativas”. Estava perguntando ao meu chefe (hoje pai de um menino de quase 4 anos e esperando o segundinho) se ele e a esposa fizeram um quarto montessoriano para o filho e ele me soltou esta resposta. E faz todo o sentido.

Mães e pais muitas vezes ficam criando expectativas em cima de absolutamente TUDO relacionado ao filho.

Faz um quarto lindo com um berço e o bebê dorme na cama dos pais até 1 ano de idade (nunca dormiu no berço, nem pra uma soneca), estuda muito e faz o BLW na introdução alimentar, e o filho só quer comer de colher, fala que nunca vai contratar uma babá e dá tudo errado na adaptação ao berçário… estes exemplos foram comigo, tá manas?

Quem vai ditar o que quer e como quer são nossos filhos, criarmos expectativas sobre o que nós queremos para eles é frustrante demais.

E se você não quer se decepcionar, esteja mais que preparado para que as coisas não aconteçam exatamente como esperava.

Outro ponto importantíssimo que a maternidade me tocou foi o feminismo.

Se eu já era feminista antes de me tornar mãe, isso se multiplicou e reverberou dentro de mim… outro dia falei que se pudesse escolher uma só palavra para descrever minha maternidade eu escolheria EMPODERAMENTO.

Estar cercada de mulheres maravilhosas se desdobrando para ser mãe-amiga-esposa-namorada-irmã-filha-profissional, 24h por dia, todo dia, crescer, aprender, conviver com quem tem filhos, quem não tem filhos, quem quer ter filhos, quem não quer ou não pode ter filhos. Esta rede única feminina é poderosa.

Com o grupo de mães MARA que me acompanha desde os primeiros dias de Joca (cospe pra cima, mulher! hehehe)

Aceitar esta transformação de perder sua identidade de mulher sem filhos, homem sem filhos, para ter uma nova identidade EM FAMÍLIA é poderoso demais.

OBS: Quando comecei a escrever este texto, Joca ainda mamava… agora terminamos o processo de desmame gentil, que começou pouco depois dele completar 2 anos. Foram quase 4 meses de um processo que tentou ser o mais amoroso possível, comigo e com ele, e deu certo!

Carolina, agradeço muito por ter topado se abrir, contar sua trajetória e construção desta família tão linda, gostosa de ver e conhecer! Obrigada!

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